Tenho pensado sobre como as experiências da infância influenciam quem nos tornamos. O que aprendemos sobre trabalho, pertencimento e reconhecimento dentro de casa pode nos acompanhar por toda a vida.
Durante a pesquisa que deu origem ao meu livro Herdeiros, me chamou a atenção que os cinco entrevistados começaram suas histórias justamente pela infância, revelando como as expectativas familiares influenciaram suas escolhas.
Como transmitir valores aos nossos filhos e, ao mesmo tempo, dar espaço para que descubram quem realmente são?
Boa leitura e reflexão!
Antes de aprendermos a fazer escolhas, aprendemos a reconhecer o que esperam de nós. Na infância, percebemos quais comportamentos são valorizados, quais atitudes recebem aprovação e quais características parecem “garantir nosso lugar” dentro da família. Essas experiências ajudam a construir a maneira como enxergamos a nós mesmos e o mundo.
Nas famílias empresárias, o negócio faz parte da identidade familiar, e valores como dedicação, responsabilidade e continuidade são transmitidos muito antes de qualquer conversa formal sobre sucessão. Mas o que acontece quando o desejo de pertencer começa a se confundir com a necessidade de corresponder às expectativas?
Para explorar essa questão, recorremos às histórias reunidas por Mariana Moura em seu livro Herdeiros e a conceitos da psicanálise que ajudam a compreender a relação entre infância, identidade e liderança.
Em sua pesquisa, Mariana entrevistou cinco herdeiros brasileiros para investigar a experiência emocional de assumir um lugar de liderança na empresa da própria família. Ao contar suas trajetórias, todos começaram pela infância, recuperando episódios que revelavam os papéis que haviam aprendido a ocupar.
“Quando somos convidados a narrar nossa história de vida ou a falar da nossa família, é inevitável começarmos pela infância; é como se as lembranças da infância funcionassem tal qual um fio condutor da nossa história e de quem somos.” Trecho de Herdeiros, de Mariana Moura.
Bárbara, por exemplo, cresceu sabendo que, por ser menina, não poderia trabalhar na empresa. Enquanto os irmãos eram preparados para os negócios, ela procurava não chamar atenção.
“Bárbara, herdeira da terceira geração, contou que escondia prêmios escolares do pai e se esforçava para não ‘dar trabalho’ mesmo sendo uma excelente aluna, pois não queria se destacar demais em relação aos irmãos, que não eram tão bons.” Trecho de Herdeiros, de Mariana Moura.
Carlos viveu outra experiência. Aos oito anos, pediu para acompanhar as entregas da empresa e o pai concordou, desde que participasse de toda a rotina de trabalho.
“Trabalhei que nem um camelo, cheguei em casa arrebentado. Mas disse: ‘Adorei!’.” Relato de Carlos, reproduzido em Herdeiros.
Anos depois, reconheceu que sua aproximação com o negócio também era uma maneira de estar perto do pai.
“Eu fui me deixando levar para a empresa porque também ganhava outras coisas. Podia estar perto do meu pai.” Relato de Carlos, reproduzido em Herdeiros.
Já Bruno foi pressionado a ingressar na faculdade de medicina, com a promessa de que poderia escolher seu caminho depois da aprovação. Quando conseguiu, não sentiu a alegria esperada.
“Passa no vestibular (de medicina) e depois escolhe. Mas, quando passei, arranjei muitos inimigos, porque eu não fiquei alegre. Entrei em crise existencial, e as pessoas tinham raiva de mim”. Relato de Bruno, reproduzido em Herdeiros.
São experiências distintas, mas que revelam como o desejo de pertencimento pode influenciar comportamentos e escolhas. Esconder conquistas, encontrar no trabalho uma forma de proximidade ou alcançar um objetivo que não se reconhece como próprio.
Essas histórias ajudam a compreender o conceito de falso self, desenvolvido pelo psicanalista Donald Winnicott para descrever uma organização defensiva da personalidade que pode surgir quando o indivíduo precisa se adaptar excessivamente às expectativas do ambiente.
Todos ajustamos nossos comportamentos às situações e às pessoas. A dificuldade aparece quando essa adaptação se torna tão predominante que perdemos contato com nossos próprios desejos.
“Em vez de desenvolver e expressar seu ‘verdadeiro self’ (expressão autêntica e espontânea da individualidade), ele cria uma versão de si mesmo que se adapta ao que os outros esperam.” Trecho de Herdeiros, de Mariana Moura.
A criança que nunca reclama, procura agradar e corresponde às expectativas é vista como madura e responsável. Na vida adulta, pode se tornar alguém competente e admirado, mesmo sem reconhecer plenamente o que deseja para si.
Nas famílias empresárias, essa dinâmica ganha força quando o trabalho se torna uma das principais referências de reconhecimento e pertencimento. Os sacrifícios dos fundadores e a dedicação para construir o patrimônio costumam ocupar um lugar importante nas histórias transmitidas às próximas gerações. Essas referências despertam orgulho, mas também criam a expectativa de que todos compartilhem os mesmos interesses.
Em sua pesquisa, Mariana observou famílias nas quais dedicação profissional e valor pessoal pareciam se confundir. Como trabalhar excessivamente ou colocar a empresa sempre em primeiro lugar para fim de demonstração de lealdade.
Bárbara, já adulta, descreveu sua rotina:
“Eu era a primeira a entrar e a última a sair. Nunca tirei mais do que quinze dias de férias” Relato de Bárbara, reproduzido em Herdeiros.
A dedicação ao negócio pode ser uma escolha genuína e uma fonte importante de realização, mas uma mesma atitude também pode responder à necessidade de aprovação ou ao receio de decepcionar. Essa distinção importa para o indivíduo e para a maneira como as novas gerações exercerão a liderança.
Uma pessoa que cresceu sendo valorizada por obedecer e evitar conflitos pode desenvolver grande capacidade de execução. Mas como reagirá quando precisar questionar decisões, propor mudanças ou contrariar pessoas importantes para ela?
Em Herdeiros, Mariana recupera o pensamento do psicanalista Christopher Bollas, que associa espontaneidade e vivacidade à capacidade de viver de forma autêntica e criativa.
Essa relação também aparece em estudos sobre liderança. Em um artigo publicado na Psychology Today, o psicólogo organizacional Ronald Riggio discute como competências como comunicação, cooperação, autonomia e organização podem ser estimuladas desde a infância.
Antes de ocupar uma posição de autoridade, uma pessoa precisa ter oportunidades de tomar decisões, expressar opiniões e desenvolver confiança em sua capacidade de agir.
Existe, porém, uma diferença entre estimular essas competências e preparar uma criança exclusivamente para cumprir um papel predefinido. Uma geração que aprende apenas a reproduzir escolhas anteriores pode encontrar dificuldades quando o negócio precisar de novas respostas.
“Que tipo de sucessores queremos formar? Se nosso objetivo é apenas preparar pessoas para repetir modelos existentes com eficiência e objetividade, corremos o risco de valorizar comportamentos-padrão, ou seja, aqueles que se encaixam sem fricção.” Trecho de Herdeiros, de Mariana Moura.
Se queremos formar pessoas capazes de pensar e decidir por conta própria, precisamos olhar também para o ambiente em que essas capacidades se desenvolvem. Winnicott propôs o conceito de ambiente suficientemente bom: um contexto de cuidado que oferece segurança emocional e condições para o desenvolvimento da individualidade. Não significa uma infância sem limites ou frustrações, mas um ambiente no qual a criança possa experimentar, expressar sentimentos e descobrir interesses sem sentir que precisa abrir mão de quem é.
Nas famílias empresárias, esse cuidado pode aparecer em atitudes como permitir que irmãos desenvolvam interesses diferentes, reconhecer conquistas que não estejam relacionadas à empresa e abrir espaço para discordâncias sem interpretá-las como falta de comprometimento com a família. São experiências que ajudam a construir um ambiente no qual o pertencimento não depende de todos seguirem o mesmo caminho.
Programas de formação, experiências profissionais e participação em conselhos são importantes para preparar a nova geração, mas as histórias reunidas aqui mostram que parte dessa formação começa muito antes.
Essas histórias convidam a ampliar a pergunta que orienta a formação de sucessores: além das competências necessárias para cuidar da empresa, que espaço estamos oferecendo para que nossos filhos descubram seus próprios interesses e construam uma relação genuína com o legado que receberam?
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