Sempre tive ambições de carreira, vontade de realizar e deixar um legado, ao mesmo tempo, sempre quis profundamente ser mãe. Parece absurdo, mas na minha época ninguém me falou que essa conciliação seria desafiadora! A sociedade atual incentiva mulheres a crescer profissionalmente e ocupar espaços de liderança. Mas existe uma pergunta que continua mal respondida quando a maternidade entra nessa equação: o que acontece quando esse crescimento encontra um momento igualmente transformador e de grande responsabilidade na vida pessoal?
Hoje, muitas vivem a maternidade em fases mais avançadas da carreira, enquanto lideram projetos e assumem responsabilidades maiores. Ainda assim, boa parte das estruturas de trabalho continua operando como se nada precisasse mudar.
No fim, a pergunta é simples: que tipo de cultura estamos construindo quando crescimento profissional ainda parece incompatível com a vida real?
Por muitos anos, a discussão sobre maternidade no mercado de trabalho esteve associada ao início da vida profissional, quando mulheres ainda estavam construindo experiência, ocupando cargos mais juniores e iniciando suas trajetórias profissionais. Mas essa realidade mudou. Um levantamento recente mostrou que 48% das mães e gestantes hoje têm mais de 35 anos e, dentro desse grupo, 28% têm mais de 45 anos. Na prática, isso significa que muitas mulheres estão vivendo a maternidade justamente quando suas carreiras entram em fases mais estratégicas, quando estão liderando equipes, ocupando cargos de gestão e participando de decisões relevantes dentro das organizações.
O problema é que grande parte das empresas continua operando a partir de um modelo antigo, no qual o crescimento era desenhado para trajetórias sem pausa e profissionais com disponibilidade constante. Quando a maternidade acontece no meio desse percurso, ela ainda costuma aparecer como surpresa e não como uma escolha legítima na vida.
O mesmo evento, leituras diferentes
Não por acaso, um conceito amplamente discutido no mercado de trabalho global continua ganhando força: o chamado motherhood penalty, usado para explicar como mulheres frequentemente enfrentam desaceleração salarial, menor acesso a promoções e perda de oportunidades após se tornarem mães.
Os dados mostram como isso se reflete na prática. Hoje, 25% das mulheres afirmam já ter deixado de se candidatar a cargos de maior responsabilidade por entenderem que não teriam suporte suficiente para conciliar trabalho e família e 42% dizem não se sentir confortáveis para priorizar as demandas dos filhos sem o medo de comprometer o crescimento profissional.
Benefícios simbólicos já não resolvem
Do outro lado, muitas empresas ainda respondem a esse cenário com soluções superficiais e com o que especialistas têm chamado de flexibilidade performática: políticas que existem no papel, mas pouco alteram a experiência real.
Home office pontual, horários teoricamente flexíveis e discursos sobre equilíbrio muitas vezes não resolvem o problema estrutural quando a cultura continua premiando a disponibilidade irrestrita.
Em diferentes setores, empresas começaram a criar programas de returnships, iniciativas estruturadas para mães que pausaram suas carreiras e desejam retornar ao mercado de trabalho. Esses programas surgem como resposta à perda gradual de mulheres ao longo da jornada profissional.
No Brasil, essa fragilidade também aparece nos números: mais de 380 mil mulheres foram desligadas após o retorno da licença maternidade nos últimos cinco anos, enquanto o número de empresas com programas de licença estendida diminuiu.
Tudo em família
Quando você decide empreender ou trabalhar no negócio da família essa discussão se torna ainda mais complexa porque os limites entre vida pessoal e trabalho costumam ser naturalmente mais fluidos. Pode existir a expectativa de que a proximidade familiar gere maior flexibilidade. Mas essa mesma proximidade pode produzir também pressões mais silenciosas: disponibilidade constante (inclusive nos almoços de domingo) presença em momentos decisivos e a sensação de que desacelerar pode ser interpretado como falta de comprometimento.
Quando a maternidade atravessa mulheres da família empresária, surgem perguntas sensíveis sobre sucessão, governança e continuidade do legado. Quem continua sendo visto como sucessor natural quando existe uma desaceleração temporária? A maternidade altera, mesmo que silenciosamente, a percepção sobre ambição e prontidão para liderar no futuro? Existe espaço para pausas reais sem que isso afete a legitimidade dessa liderança?
O que a maternidade está revelando sobre liderança
Existe uma contradição importante no centro dessa conversa. As organizações dizem buscar líderes mais adaptáveis, resilientes, capazes de priorizar, negociar e operar em cenários imprevisíveis. Essas são exatamente competências desenvolvidas diariamente por muitas mães. Ainda assim, a maternidade continua sendo frequentemente interpretada como redução de disponibilidade.
No olhar da Evoa, a pergunta não é como encaixar mães em estruturas antigas, mas se essas estruturas ainda fazem sentido quando tratam de cuidado, família e os ciclos reais da vida.
Para se aprofundar
“Maternidade mais tardia muda o jogo para mulheres no mercado de trabalho” – Valor Econômico (2026)
“There Are More Women in the Workforce Than Men Again” – Fast Company (2026)
“Companies Offering Returnships for Moms Reentering the Workforce” – Forbes (2025)
“How Employers Can Better Support Working Mothers” – Fast Company
“Women in the Workplace” – McKinsey & Company
Prova oral, a velha resposta ao ChatGPT
Universidades como Cornell, NYU e Penn estão retomando o exame oral como antídoto à IA generativa. Os trabalhos escritos chegam perfeitos, mas os alunos não conseguem explicar o que entregaram. O recado é incômodo: virou difícil distinguir o que foi pensado do que foi terceirizado. A pergunta vale para qualquer organização, inclusive famílias empresárias.
A corrida pelas carreiras “à prova de IA”
Estudantes americanos estão migrando em massa para áreas que parecem menos automatizáveis: ciência da computação caiu 8% em 2026, enfermagem subiu quase 5%. 70% dos universitários veem IA como ameaça à carreira. Ninguém sabe ao certo quais cursos são realmente “à prova de IA”, mas a aposta agora é em pensamento crítico, julgamento e relação humana.
A crise de atenção chega ao cinema
Reportagem da The Atlantic mostra professores de cinema relatando algo novo: alunos de cinema que não conseguem mais assistir filmes inteiros. Assistem em velocidade dupla, abandonam no meio, checam o celular durante a sessão. Se nem o que era prazer sustenta foco, vale a pergunta: que tipo de atenção sobra para o que é difícil, longo e importante?
TIME100: a narrativa como ativo de poder
A TIME divulgou as 100 empresas mais influentes de 2026 e o fio condutor escolhido pelo editor-chefe é claro: o poder da narrativa. As empresas em destaque, de Google a Rhode, são lideradas por quem soube articular uma visão e sustentá-la por tempo suficiente até o mundo entender. Em ano de tanto barulho, contar bem a própria história virou diferencial competitivo.
Dicas para se manter atualizado
O livro reúne relatos de 21 mulheres sobre maternidade longe das ilusões de perfeição. É uma reportagem sobre afeto, conciliação e a transformação que os filhos impõem. Leitura que conversa direto com qualquer família que entende: a maternidade atravessa tudo, inclusive o trabalho.
Aprendi a não buscar seguir o modelo da “mãe ideal”, uma espécie de manual a ser seguido, e sim agir com mais espontaneidade a partir dos meus valores e minha experiência. A gente quer que os filhos se desenvolvam como seres humanos e tenham coragem para construir uma vida com autoria e sentido não que sigam um padrão e apenas se adequem e se comportem, não é? Isso me fez pensar o que realmente faz sentido na educação das minhas filhas, como apoiá-las para descobrir seus potenciais, seus desejos, a trilhar seus próprios caminhos e não ter uma preocupação excessiva em orientá-las para se adequar às minhas próprias expectativas ou a dos outros., Busco exercer uma autoridade que vem do amor, da dedicação, do exemplo, do respeito e não do poder, uma orientação que se esforça para não podar demais, não sufocar, que permita que elas experimentem e se desenvolvam, respeitando suas escolhas. Levo esse mesmo cuidado para a forma como lidero e me relaciono no trabalho. – Mariana Moura, fundadora
A maternidade me ensinou que rotina não é sobre controle, mas sobre adaptação. Quase uma gestão de projetos em tempo real: mudanças de rota, aprendizado contínuo e vulnerabilidade como parte do processo. Também ampliou minha escuta e empatia, entender que nem toda necessidade é verbalizada ou reflexo de um momento imediato. . Priorização, presença real , gestão do tempo, flexibilidade para recalcular caminhos e o reencontro com o lúdico, com o brincar e a criatividade, são habilidades que levo comigo também para o trabalho. – Andrea, consultora da Evoa
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