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Será que o problema é mesmo comunicação?

Chegamos ao fim do ano com uma sensação que atravessa quase todo mundo: estamos sobrecarregados. Não só pelo trabalho, mas pelo excesso de pontos de contato que nos atravessam o dia inteiro: WhatsApp, e-mails, ligações, notificações que chegam sem aviso e sem acordo.

Nas empresas familiares, isso se intensifica. Os papéis se misturam, as conversas sobrepõem horários e canais, e aquilo que deveria ser simples e direto, pode virar tensão: alguém se sente cobrado, outro se sente ignorado, e boa parte do desgaste não vem da intenção, mas da falta de limites combinados.

No fundo, muitos dos nossos “problemas de comunicação” são, na verdade, ausência de acordos sobre disponibilidade, urgência e forma de linguagem. Nesta edição, quero deixar um convite: que a comunicação, especialmente no próximo ano, seja também um gesto de cuidado: com o nosso tempo, com o tempo do outro e com as relações que sustentam o sistema.

Um excelente fim de ano a todos.
Nos vemos em 2026!

Olhar Evoa

Nos últimos anos, passamos por uma transformação silenciosa, mas avassaladora: nunca estivemos tão conectados, e nunca tivemos tanta sensação de que algo está falhando na comunicação. Os canais se multiplicaram, a velocidade das informações (e dos áudios) aceleraram, mas a clareza não acompanhou. Pesquisas recentes mostram que a estrutura da comunicação afeta diretamente:

  • equipes remotas, que lidam com atrasos, ambiguidade e retrabalho;

  • gestores, pressionados por uma disponibilidade constante;

  • profissionais de diferentes gerações, que precisam interpretar mensagens com a mesma precisão, apesar de linguagens completamente distintas.

A hiperconectividade tornou tudo mais rápido, mas não necessariamente mais claro e, muitas vezes, mais frágil.

O WhatsApp é talvez o maior retrato desse descompasso e não somente no Brasil. Como destacou o Financial Times, o aplicativo dissolveu a fronteira que antes existia entre vida pessoal e trabalho: hoje, a mesma notificação pode ser um familiar perguntando a que horas você chega ou o gestor pedindo algo urgente. A informalidade típica do canal contaminou a lógica do trabalho, com emojis, abreviações e decisões enviadas por mensagem instantânea, sem registro formal. A Gama Revista observa outro efeito: o aplicativo criou uma cultura em que toda mensagem parece urgente e a ausência de resposta vira mensagem em si. Sem acordos sobre horário, canal e contexto, cada pessoa interpreta a partir do seu próprio limite, o que transforma o WhatsApp em ferramenta útil e também em gatilho de ruído e ansiedade.

Diferenças geracionais ampliam esse cenário. Estudos da BBC e da Forbes mostram que Geração Z tende a se comunicar de forma direta e informal, enquanto lideranças mais experientes valorizam contexto e etapas.

Não existe certo ou errado, apenas estilos que, se não alinhados, somados à velocidade dos canais, produz um ambiente em que não só o que é dito importa, mas principalmente como, quando e onde é dito.

E, quando olhamos para o impacto emocional, o quadro se intensifica. A HR Magazine indica que falta de clareza aumenta o estresse, acelera o burnout e gera a sensação de que estamos sempre “atrasados”. A ausência de fronteiras, especialmente nos canais instantâneos, coloca profissionais em estado permanente de vigilância. Não à toa, alguns países, como a Espanha e Portugal, começam a legislar sobre mensagens fora do horário de trabalho, reconhecendo que a sociedade tenta reconstruir limites que a tecnologia dissolveu.

O que isso significa para empresas familiares

Nas empresas familiares, tudo isso ganha outra camada. Relações de décadas, vínculos afetivos, papéis sobrepostos e sensibilidades distintas fazem com que cada mensagem carregue mais significado do que aparenta.

Há ainda um fator muito comum: o padrão de comunicação da família frequentemente é levado, sem filtro, para dentro da empresa. Conversas informais, sem pauta ou agenda, interrupções constantes, assuntos que se misturam, decisões que ficam no ar. Fala-se como se estivesse em casa, mas espera-se o resultado de um ambiente profissional.

O efeito disso, no dia a dia, é previsível: pessoas não se sentem ouvidas, decisões não ficam claras, combinados não são formalizados e cada um sai da conversa com uma interpretação diferente do que foi dito ou do que deveria ter sido decidido.

Por isso, no olhar da Evoa, comunicar-se é construir combinados e acordos sobre como queremos nos relacionar e não apenas dominar técnicas. É definir juntos qual canal serve para cada tipo de conversa; utilizar ferramentas como o The Family and Business Listening Bear, pactuar horários de silêncio e janelas de resposta; decidir o que é urgência e o que é rotina; reconhecer que diferentes gerações usam linguagens distintas e que isso pode ser ponte e não obstáculo. Por último, abrir espaço para conversas que não cabem nas telas e usar tecnologia como apoio pode ser o caminho.

A pergunta deixa de ser “como evitamos falhas de comunicação?” e se transforma em algo mais simples como “O que precisamos combinar para que a comunicação funcione para todos?”

Visão de Futuro

  • ChatGPT lança chats em grupo para colaboração estruturada
    A nova função permite que equipes criem conversas com até 20 participantes com a IA atuando como facilitadora. O recurso foi pensado para brainstorming, organização de tarefas e decisões em tempo real, aproximando o uso de IA do fluxo de trabalho cotidiano.
  • O poder do “algospeak” e o que ele revela sobre a internet
    Usuários têm adotado linguagens codificadas para tentar driblar a moderação das plataformas, especialmente em temas sensíveis. A eficácia dessa estratégia ainda é discutida, mas o fenômeno evidencia o peso dos algoritmos no discurso público

Para se Inspirar

Dicas para se manter atualizado

Ler

Nesta seleção anual de fim de ano, Bill Gates indica cinco obras, entre ficção, ensaio e memórias, que oferecem “uma visão profunda sobre como o mundo funciona”: da comunicação social à crise climática, da evolução da indústria criativa à busca por significado pessoal. A lista é pensada para inspirar reflexão durante as férias.

Assistir

A professora Alison Wood Brooks, especialista em comportamentos e comunicação da Harvard Business School, mergulha  nas dinâmicas que moldam a comunicação eficaz entre pessoas, oferecendo frameworks práticos e insights sobre erros comuns em conversas.

Convite à Transformação

No Programa de Desenvolvimento da Nova Geração da Evoa Academy, a comunicação é trabalhada como uma competência estratégica. Nesse programa, incluímos um módulo de Comunicação Assertiva no qual os participantes aprendem e tomam consciência sobre os padrões de comunicação familiares reproduzidos no ambiente empresarial que muitas vezes geram ruídos, silenciam diferenças ou partem para o embate (fuga ou luta), ou geram desalinhamentos e dificuldades na construção de entendimentos e na tomada de decisão.Com uma abordagem estruturada, baseada em facilitação profissional e experimentação prática, os encontros criam um espaço seguro para observar, testar e aprimorar formas de diálogo mais claras, objetivas e eficazes, fundamentais para a construção de relações profissionais maduras e para o exercício responsável do papel da nova geração nas empresas familiares.

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