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3 superpoderes da comunicação

A gente fala muito sobre escuta ativa, mas tenho pensado que escutar de verdade talvez seja mais difícil do que parece. Porque não basta ficar calado e dar espaço para o outro falar, é preciso entrar em uma conversa com o interesse real de entender o que o outro quer dizer. O que nos impede de ouvir verdadeiramente é o medo de enfraquecer a nossa própria posição, o receio de que ao compreender o outro eu precise rever uma percepção, ceder ou até reconhecer um erro.

Nas famílias empresárias, esse exercício ganha outras camadas. As relações carregam histórias, expectativas e papéis que se misturam, e muitas vezes ouvimos o que está sendo dito a partir daquilo que já sabemos, ou acreditamos saber, sobre quem está falando.

Por isso, acreditamos que uma boa comunicação reúne três dimensões complementares: empatia, que vai além da escuta; clareza, para garantir que estamos realmente nos entendendo; e energia, para sustentar a presença que as conversas importantes exigem.

Olhar Evoa

Nas famílias empresárias, a comunicação costuma ser vista como um traço de personalidade. Um integrante é mais comunicativo, outro mais reservado, um sabe ouvir, outro tem dificuldade para se expressar. Mas, quando olhamos para a comunicação como parte da liderança, ela se aproxima muito mais de uma competência que pode, e precisa, ser desenvolvida com prática e intenção.

Talvez por isso faça mais sentido falar em desenvolvimento do que simplesmente em upskilling, termo geralmente associado à aquisição ou atualização de uma habilidade específica. Aqui, estamos falando de comportamentos que precisam aparecer nas relações cotidianas. Afinal, culturas não mudam porque alguém aprendeu uma nova ferramenta, mudam quando as pessoas passam a se relacionar, conversar e tomar decisões de outra forma.

Existe uma razão para investir no desenvolvimento de quem lidera. Somente 20% das pessoas se dizem engajadas no trabalho e cerca de 70% da variação no engajamento de uma equipe pode ser atribuída diretamente ao gestor. Nesse contexto, três dimensões da comunicação ganham importância: empatia, clareza e energia

Empatia vai além de escutar

Empatia é muito mais que escuta ativa, significa estar verdadeiramente interessado no que ele tem a dizer.

Uma dica é evitar algo bastante comum em discussões: transformar rapidamente uma discordância em polarização. Se alguém questiona uma ideia, tendemos a imaginar que está defendendo exatamente o oposto, quando muitas vezes existe apenas uma perspectiva diferente que pode, inclusive, compor uma solução melhor.

Nas famílias empresárias, esse exercício ganha outra dimensão porque as conversas carregam uma história anterior. Não ouvimos apenas um sócio ou uma executiva, mas também um pai, uma irmã, um primo ou uma filha. Exercitar a empatia passa também por suspender, ainda que por alguns instantes, as interpretações que já construímos sobre aquela pessoa e se interessar pelo que ela está dizendo agora.

Clareza não termina quando a gente fala

É comum acreditarmos que estamos sendo claros. O problema é que clareza não deveria ser medida apenas pela intenção de quem fala, mas pelo entendimento de quem escuta. Se uma mensagem não foi compreendida como se esperava, a responsabilidade da comunicação continua sendo de quem comunica.

Por isso, checar é essencial. Existe um vício comum em concordar ou discordar de imediato: o “concordo” pode encerrar uma discussão antes que suas nuances apareçam, enquanto o “discordo” tende a criar posições defensivas. Entre os dois existe um espaço importante para entender onde estão, de fato, as diferenças.

É aí que entram os rituais de checagem. Depois de uma conversa importante, colocar por escrito aquilo que o grupo entendeu e ajustar o registro até que todos se reconheçam nele cria uma referência comum. Vale, inclusive, preservar as palavras usadas pelo próprio grupo: ao resumir ou substituir termos por sinônimos, ou confiar apenas em consolidações feitas por IA, nuances importantes do que foi combinado podem se perder.

Energia também interfere na compreensão

Uma mensagem pode ser tecnicamente correta e perfeitamente organizada e, ainda assim, não ser compreendida. Até o tom de voz e ênfase que damos às palavras é, fundamental para destacar prioridades ou sinalizar onde a atenção precisa estar, garantindo o engajamento através da energia depositada.

Energia, nesse sentido, não significa falar alto ou performar entusiasmo, mas conseguir transmitir, pela forma, a importância daquilo que está sendo colocado na mesa.

O ambiente também interfere. Em famílias empresárias, muitas conversas relevantes acontecem entre pessoas acostumadas a dividir almoços, viagens e salas de estar, e essa proximidade pode fazer com que decisões importantes sejam conduzidas com a mesma informalidade das relações pessoais. Uma boa prática é criar combinados sobre ambiente, postura, tempo disponível e até o uso do celular: isso ajuda a sinalizar que aquele momento pede outro tipo de atenção.

No olhar da Evoa, empatia, clareza e energia se desenvolvem na prática e nos pequenos comportamentos que, repetidos, ajudam a formar uma cultura. Nas famílias empresárias, onde os papéis de sócio, pai, filha, irmão e líder frequentemente se encontram na mesma mesa, isso significa ouvir antes de concluir, confirmar o que foi entendido e criar espaço para que conversas importantes recebam a presença que exigem.

Porque, no fim, a qualidade da comunicação aparece menos naquilo que acreditamos ter dito e mais no que conseguimos construir a partir das nossas conversas.

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